Durante décadas, construímos software de uma forma relativamente previsível: primeiro definíamos requisitos, depois desenhávamos telas, programávamos regras, integrávamos sistemas e, só então, entregávamos uma aplicação para uso. O usuário precisava aprender a operar aquilo que já havia sido previamente definido. O negócio precisava, muitas vezes, adaptar seu processo ao limite da aplicação.
Esse modelo começa a mudar de forma profunda. Com inteligência artificial generativa, agentes, automação e novas arquiteturas de integração, o software deixa de depender exclusivamente de estruturas totalmente programadas de antemão. Ele pode ser gerado sob demanda, a partir de uma necessidade concreta, de uma intenção ou de um objetivo expresso pelo usuário.
Isso dá origem ao que chamo de software mutante: sistemas cuja interface, lógica e comportamento podem se reorganizar ao longo do tempo. O front-end deixa de ser necessariamente fixo. O back-end pode compor novas regras, integrações e serviços. Funcionalidades podem surgir quando necessárias e ser modificadas quando o contexto muda.
Não se trata simplesmente de colocar um chat dentro de um software tradicional, nem de substituir cliques por comandos de voz. A transformação é mais profunda: a própria relação entre intenção e sistema muda. O usuário expressa o que precisa realizar e a arquitetura digital passa a participar da construção da resposta.
Por isso, proponho uma nova leitura para uma ideia clássica. Se Descartes escreveu “penso, logo existo”, a provocação deste manifesto é outra: penso, logo existe. A intenção torna-se o ponto de partida para a criação de uma solução digital.
O software sob demanda não elimina engenharia, arquitetura ou governança. Pelo contrário. Quanto mais fácil se torna gerar software, mais importante se torna definir corretamente processos, regras, dados, objetivos e limites. O valor deixa de estar apenas na capacidade de programar e passa a estar, cada vez mais, na capacidade de compreender, estruturar e transformar uma necessidade em uma solução que possa nascer, operar e evoluir.
Dr. Rafael Araujo Kluska, PhD
Curitiba, Brasil · 2026
Rafael Araujo Kluska é pesquisador e especialista em Digital Twin, Machine Learning e Inteligência Artificial Generativa. É Engenheiro de Controle e Automação, Mestre e Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas, com Pós-Doutorado em Engenharia de Produção e Sistemas e pesquisas em Gêmeos Digitais e IA Generativa. Realizou período de pesquisa na Virginia Tech, nos Estados Unidos, e atua também em gerenciamento de projetos tradicionais, ágeis e exploratórios, transformação digital, modelagem de processos e desenvolvimento de software. É fundador e diretor da Fluxo Business Automation.